Doenças transmitidas por carrapatos em cães

O propósito deste artigo é ajudar os criadores de cães a entenderem melhor sobre uma doença silenciosa e fatal que todos os anos ceifa mais e mais vidas de cães em todo este país.

- BABESIOSE

- ERLICHIOSE

Babesiose

O que é?
Doença provocada por uma protozoário que penetra na corrente sangüínea através da picada do carrapato. O protozoário é chamado de Babesia.

Vetor Primário:
O carrapato canino(o qual para transmitir tem de ser alimentar no mínimo de 2 a 3 dias).

Outros vetores:
Transfusão sangüínea, Agulhas e instrumentos contaminados, Transplacentária e outros carrapatos de espécies diferentes.

Diagnóstico:
Dois testes são usados por veterinários para a detecção da infecção:

- O IFA (detecção de anticorpos por fluorescência indireta), que é usado para detectar a presença de anticorpos para a doença no soro sangüíneo dos cães.

     Este teste determinará o nível de título da doença, menos do que 1:40 é considerado negativo e títulos acima de 1:80 é considerado positivo para uma infecção ativa. Este é o teste mais seguro para a detecção da doença.

- A coloração de Guiemsa é usado para encontrar o próprio protozoário em um esfregaço de sangue canino. Não é muito seguro pois freqüentemente os protozoários não são encontrados.

Comentários:
A babesiose é uma doença cíclica, similar a malária. Os sinais clínicos variam grandemente dependendo do estágio da doença, idade, do estado imune do cão e das complicações de outras doenças.

Fases:
- Aguda: Esta fase é de curta duração e ocorre quando o animal é inicialmente infectado com a doença, caso o animal não morra da infecção, esta passará para a próxima fase.

- Subclínica: Esta fase pode durar meses ou anos e é caracterizada por um delicado equilíbrio entre o parasita e o sistema imune do hospedeiro. Este equilíbrio pode ser desfeito por uma série de fatores:

*stress ambiental, doenças oportunistas ou infecciosas (erlichiose), imunodeficiência, remoção ou outras cirurgias, tratamento imunossupressivo (corticóides).

O cão poderá exibir alguns sintomas clínicos durante esta fase(febre intermitente e perda de apetite).

     Caso o equilíbrio seja desfeito, o parasita começará lentamente a se multiplicar e o cão irá para a próxima fase.

- Crônica: Caso o sistema imune mostre-se impotente para eliminar o parasita, este entra na fase final. O sinal clínico mais óbvio para o proprietário é a letargia, desinteresse pela comida e perda de peso progressiva. Outros sintomas:

#problemas respiratórios, vômitos, convulsões, diarréia, aumento de linfonodos. O hemograma deste animal revela trombocitopenia (queda pronunciada de plaquetas), anemia na maioria dos casos e leucopenia (queda de glóbulos brancos) é muito freqüente.

Tratamento:
O tratamento de escolha é feita com propionato de Imidocarb (Imizol) e a taxa de sucesso é bastante elevada.

Erlichiose

O que é:
É uma doença provocada por uma ricktesia que infecta o sangue do animal. A ricktesia se chama Erlichia e a doença erlichiose.

Espécies:
Erlichia canis, Erlichia risticii, entre outras.

Vetor Primário:
O carrapato canino

Diagnóstico – Comentários – Fases:
Os mesmos já descritos no tópico Babesiose

Sintomas:
- letargia, perda de peso

- hemorragias de mucosas(principalmente nasal)

- diarréia, vômitos

- hemograma revela queda de plaquetas, leucopenia freqüente e anemia pronunciada

- pneumonia intersticial

- falha renal, artrites e supressão da medula óssea.

Diagnóstico diferencial:
- reticulocitose, lúpus sistêmico, brucelose, blastomicose, trombocitopenia, câncer de baço ou fígado, mieloma de células plasmáticas e leucemia.

Tratamento:
Doxiciclina, 11mg/kg duas vezes ao dia durante 21 dias ou mais.

          Tetraciclina, 22 a 33 mg/kg três vezes ao dia durante 21 dias ou mais.

BIBLIOGRAFIA

– CANINE TICK DISEASES (LYNDA ADAME, adame@venice.dh.trw.com)

DISPLASIA COXOFEMURAL

O que é?

     O termo displasia pode ser considerado como uma incongruência articular, onde as faces articulares não se apresentam uma perfeita harmonia, prejudicando deste modo o movimento articular. Este processo ocorre mais freqüentemente nas articulações coxofemural e úmero-radio-ulnar (cotovelo). Essas patologias tem ganhado grande importância devido ao aumento de sua incidência, considerada de grande importância em algumas raças como os rottweilers e pastores alemães. Os animais afetados apresentam dificuldade de locomoção e dores fortes nas articulações afetadas. Para diferenciarmos radiograficamente primeiro mostraremos a radiografia de um animal normal(foto 1) e depois de uma animal displásico(foto 2).

Como saber se meu cão é displásico?

     O diagnóstico da displasia coxofemural só pode ser confirmado através de exame radiológico ( raio x ) realizado por médicos veterinários capacitados em realizar esse exame, atendendo sempre as normas recomendadas pela ABRV ( Associação Brasileira de Radiologia Veterinária ). O médico veterinário irá analisar as faces articulares do fêmur e do acetábulo ( fossa localizada na bacia ), observando a conformação anatômica, se há pequenas fraturas ou formações inflamatórias no osso, além da harmonia que deve existir entre as faces articulares. Deve-se pensar na displasia coxofemural quando o cão apresenta claudicação ( manca ), evita apoiar o membro afetado, tem dificuldade em correr e passar por obstáculos como escadas ou batentes.

Como surge a displasia?

    Existem varias teorias em relação aos fatores predisponentes da displasia coxo-femural. A relação hereditária é a mais importante já que a doença é transmitida de pai para filho. Por isso os animais considerados positivos para displasia devem sair da linha reprodutiva, evitando assim a disseminação da patologia. Outro fator predisponente é uma alimentação excessivamente protéica na fase de crescimento, o que leva a uma formação muscular em desacordo com a formação óssea, sobrecarregando deste modo a articulação coxofemural, dando início assim ao processo degenerativo. Uma dieta rica em cálcio também é um fator predisponente, bem como o uso de piso liso nos canis que leva também a uma sobrecarga articular.

Como devo tratar a displasia?

     Existem dois tratamentos utilizados para a displasia coxofemural, sendo eles clínico ou cirúrgico. O tratamento clínico consiste consiste no uso de drogas que irão diminuir a sensibilidade da articulação, permitindo a eliminação da dor do paciente. Entretanto esse tratamento é puramente sintomático, pois não resolve o processo degenerativo da articulação. São utilizados como arma terapêutica os glicosaminoglicanos, que são precursores do líquido sinovial ( líquido da articulação) aumentando assim a lubrificação da articulação, diminuindo o atrito entre as faces articulares. Como observamos, os tratamentos clínicos são puramente sintomáticos, não resolvendo o processo degenerativo da articulação. Os tratamentos cirúrgicos consistem em realizar técnicas que reangulam a articulação, corrigindo a harmonia da articulação, parando deste modo o processo degenerativo (osteotomia tripla pélvica, foto 3), ou fazendo a substituição total de toda a articulação por próteses metálicas (substituição de toda a articulação, foto 4), ou ainda retirando cirurgicamente a causa da dor (ostectomia de cabeça e colo femural, foto 5). Cada procedimento acima citado deve ser indicado para cada grau de displasia, e deve ser realizado por cirurgiões veterinários devidamente capacitados para esses procedimentos.

Como devo prevenir a displasia?

     Para se ter um canil isento de displasia, deve-se ter um cuidado excessivo na aquisição de filhotes, que devem ser filhos de cães isentos de displasia; possuir instalações corretamente desenvolvidas para receber os animais, evitando principalmente pisos lisos, e sempre procurar orientação médico veterinária para assim poder ter uma criação correta e assim um canil de sucesso.

LEISHMANIOSE (Calazar)

É doença infecto contagiosa que pode ser classificada como zoonose, pelo fato de ser transmissível dos animais ao homem, e vice e versa. O agente causal dessa zoonose, é um protozoário, e como tal microscópico.

1 – Leishmania donovani (Laveran y Mesnil, 1903): Agente das Leishmanioses viscerais, Calazar Indiano, Leishmaniose Infantil da Área do Mediterrâneo e o Calazar Americano ou Leishmaniose visceral americana.
2 – Leishmania canis (Cardamatis,1911): Leishmaniose visceral dos cães e gatos.
3 – Leishmania infantum (Nicole, 1908): Calazar na área do Mediterrâneo, hoje reconhecidamente idêntico ao Calazar Indiano, de Wright.
4 – Leishmania tropical (Wright, 1903): Agente da Leishmaniose cutânea ou botão do Oriente, Botão de Biskra ou Botão de Aleppo.
5 – Leishmania braziliensis (Vianna, 1911): Determina a Leishmaniose tegumentar americana, ou Leishmaniose cutaneomucosa, Espúndia, Uta, Úlcera de Baurú, etc.

     Todas essas espécies de Leishmania já classificadas, têm em comum o fato de necessitarem para se reproduzir e atingirem a forma adulta, passarem por um hospedeiro invertebrado obrigatoriamente um mosquito diptero do gênero Phlebotomo. Tal característica de exigirem mais de um hospedeiro em seu ciclo evolutivo biológico, lhes conferem em Parasitologia a denominação de parasitas heteroxenos.

       Os mosquitos do gênero Phlebotomo, hospedeiros intermediários desses parasitas unicelulares causadores dessas doenças, são vulgarmente chamados no Brasil por Biriguís, Mosquito Palha, Mosquito pólvora ou Cangalhinha, por serem de pequeno porte, medindo em torno de 2 a 3 milímetros, portanto menores que um pernilongo comum. Tais mosquitos tem hábitos noturnos, atacando suas vítimas para sugar sangue em geral no entardecer e começo da noite, e dessa picada transmitem para o novo hospedeiro (animal ou o homem), a doença, que assume duas formas distintas:

LEISHMANIOSE CUTÂNEA OU TEGUMENTAR – Essa forma clínica da doença, admite-se ser autóctone do Continente Americano. Os Índios ceramistas, pré-colombianos do Perú, representam em seus vasos numerosos estados patológicos, de modo que o médico e o historiador encontram nesses “huacos ” possibilidade de identificação de diversas enfermidades. No Perú é essa doença denominada Uta, assim parecendo não haver dúvida a respeito da existência da Leishmaniose tegumentar entre os habitantes da América Pré-colombiana. No Brasil, já no ano de 1885 foi a mesma observada e identificada ao Botão de Biskra, pelo médico Brasileiro A. Cerqueira. Em 1895, Breda, na Itália, descreveu-a em Italianos que, de S. Paulo, haviam voltado para sua pátria. Em 1908, começaram a afluir à Santa Casa de S. Paulo, numerosos doentes vindos das regiões assoladas pela doença, e como em sua maioria fosse procedentes da região Noroeste (Baurú), ficou a doença conhecida por Úlcera de Baurú. Apenas em 1909, Adolfo Lindeberg noticiou a descoberta do parasita dessa doença, que ele identificou ao agente causal do Botão do Oriente, descoberta posteriormente confirmada pelos cientistas Brasileiros Carini e Paranhos.

LEISHMANIOSE VISCERAL – O cientista Brasileiro Carlos Chagas, descobridor de todo o ciclo da doença que hoje leva seu nome (Doença de Chagas), percorrendo nos anos de 1911 e 1912 o Vale do Rio Amazonas, suspeitou da ocorrência do Calazar, nessa região; Nome esse que também é sinônimo dessa forma clínica da doença Pesquisas de Evandro Chagas, irmão de Carlos Chagas, também cientista, é inclusive criador de um teste de soro-aglutinação para diagnóstico dessa doença, permitindo identificar as diferentes espécies de Leishmanias. Essa forma clínica (Visceral), é aquela freqüentemente encontrada entre os animais sensíveis como o cão ou o gato, além da cobaia utilizada em laboratório.

     O mosquito hospedeiro intermediário, do gênero Flebótomo ( Phlebotomo), no qual gênero foram já descritos várias espécies (P. Whitmani. P. Pessoai e P.migonei entre outros), ao sugar sangue de um animal (ou do homem) infectado, também de contamina, e em seus intestinos e glândulas salivares esse protozoário se multiplica, sendo então as chamadas formas de leptomonas encontradas no buco-faringe desses mosquitos. Tais mosquitos, ao sugarem sangue posteriormente, pelo fato de por assim dizer injetarem na picada da pele sua saliva, por ser esta anti-coagulante e assim evitar que o sangue da sua vítima se coagule, injetam nesse ato também tais formas infectantes da Leishmania, a qual caindo da circulação sanguínea desse novo hospedeiro (chamado porisso hospedeiro definitivo), vai dessa forma reproduzir a doença, numa das formas clínicas anteriormente citadas.

     O período chamado de incubação (período que vai da picada pelo mosquito infectado até o aparecimento dos primeiros sintomas) varia entre 10 e 25 dias, podendo, no entretanto, chegar até um ano. Após esse período aparecem em geral pápulas na pele do animal ou do homem infectado, pápulas essas nada características, porém proriginosas (coçam) determinando sensação de calor e dor. Ocorre também nessa fase adenopatia (inflamação) dos gânglios próximos a picada pelo mosquito. Nessa ocasião, sendo feita punção desses gânglios inflamados, deverão ser encontradas as formas infectantes do protozoário. O gânglio linfático inflamado se necrosa, e assim lesado acaba por vir a furo para evacuar esse material purulento, ficando em seu local uma úlcera, denominada de cancro espúndico.

     Nessa forma clínica a doença nessa fase é facilmente diagnosticavel pela exibição de úlceras cutâneas características. Em alguns casos, no entretanto, a doença cutânea assume formas não ulcerosas, chamadas de impetiginoide ou tuberiformes, além de verrugosas e franboesoides, estas últimas assim denominadas pela sua semelhança com a fruta framboesa . O evoluir dessa doença, sem tratamento adequado, leva a lesões graves e deformantes, inclusive com perdas irrecuperáveis muitas vezes do nariz e da epiderme do rosto.

      Na sua forma visceral, as lesões sendo internas, principalmente no baço, se traduzem por aumento de volume desse órgão (esplenomegalia), além de febre e dor abdominal. Sua evolução leva também a hepatomegalia (aumento de volume do fígado).


PROFILAXIA DA DOENÇA – A mais eficiente medida de prevenção do mal, ainda é o combate ao mosquito hospedeiro intermediário, impedindo-o de se multiplicar, pela aplicação de inseticidas em seus criatórios . Paralelamente, isolamento dos hospedeiros definitivos enfermos, ou seu tratamento quando possível. Têm os mosquitos hospedeiros intermediários (Flebótomos), uma característica peculiar: Atividade crepuscular e no início da noite, quando tem atividade intensa a procura de suas vítimas para serem sugadas, pois é o sangue seu alimento, ou melhor, apenas as fêmeas desses mosquitos nutrem-se de sangue. Já os machos desses mosquitos por terem vida curta, alimentam-se de frutas silvestres por breve período. Durante a fase do dia, procuram esses mosquitos abrigo ou no interior das residências ou em matas em local protegido dos ventos. São freqüentemente encontrados em tocas de outros animais como tatus , buracos em paredes de construções, ocos de paus ou bambus ou similares. Em matas fechadas, devido a pouca luz em seu interior, podem ser visto mesmo durante o dia, inclusive ativos a procura de possíveis animais ou o próprio homem para ser sugado.

DIAGNÓSTICO – Existe um teste , criado pelo cientista Brasileiro Montenegro no ano de 1926, bastante eficiente. Trata-se de uma intradermorreação, chamada em sua homenagem por Reação de Montenegro, consistindo-se de uma simples reação alérgica, obtida pela inoculação por via intradérmica de uma suspensão de leptomonas às quais foi juntadoo fenol para sua esterilização.

TRATAMENTO – Vários medicamentos quimioterápicos, como o Tártaro Emético, Tartarato de sódio e antimonila, Fuadina, Eparseno (Amino-arseno-fenol), arsenito de sódio, e o glutamato de antimônio sódico, entre outros, foram já utilizados, porém todos determinando paralelamente graves reações secundárias , o que inviabiliza seu tratamento, a não ser em pouquíssimos casos, e nestes obrigando acompanhamento médico direto e permanente.

VACINAÇÃO PREVENTIVA – O médico Brasileiro Samuel Barnsley Pessôa, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de S. Paulo , já falecido, no ano de 1939 empregou com sucesso uma vacina preparada por cultura do protozoário em suspensão fenolada, vacina essa aplicada em três doses. Tal vacina foi aplicada em localidade altamente endêmica, com pleno sucesso. Em animais, no entretanto, ainda não empregada por motivo que desconheço.

Dr. Carmello Liberato Thadei – Médico Veterinário – CRMV-SP-0442

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